O mundo enfrenta uma crise múltipla e interligada: colapso ambiental, aumento das desigualdades, insegurança alimentar, pobreza persistente e instabilidade política crescente. Um novo estudo internacional, o Earth4All, alerta para a necessidade de transformações profundas e urgentes. O objetivo: assegurar o bem-estar humano sem ultrapassar os limites do planeta.
Desde meados do século XX, vivemos o que os cientistas chamam de “Grande Aceleração” – um período de crescimento económico, industrialização, urbanização e consumo de recursos sem precedentes. Como consequência, mais de metade de todas as emissões de carbono da história da humanidade foram libertadas desde 1990. As actuais políticas climáticas apontam para um aumento médio da temperatura global de 3,1 °C até 2100, muito acima da meta “segura” de 1,5 °C estabelecida pelo Acordo de Paris (UNEP, 2024).
Este cenário pode desencadear pontos de não-retorno climáticos, como a perda da floresta amazónica ou o colapso das calotas polares, com efeitos em cascata e potencialmente catastróficos para a humanidade.
A desigualdade é parte do problema
Apesar de décadas de crescimento económico, mais de 600 milhões de pessoas continuam a viver em extrema pobreza, e metade da população mundial vive com menos de 6,85 dólares por dia ou seja 5,84 euros. Ao mesmo tempo, a contribuição para os problemas ambientais está longe de ser equitativa: um bilionário pode emitir até um milhão de vezes mais carbono do que uma pessoa comum.
A desigualdade dentro dos países também está a aumentar, enquanto a fatia da riqueza pública está em declínio, minando o investimento em serviços essenciais como saúde, educação e protecção social. Esta erosão da confiança pública dificulta a acção governamental e agrava as tensões sociais, tornando ainda mais difícil enfrentar os desafios sistémicos.
Dois Futuros Possíveis: TLTL e GL
O modelo Earth4All foi desenvolvido para explorar cenários alternativos de desenvolvimento global entre 1980 e 2100. Com base em dados históricos e em tendências actuais, foram criados dois grandes cenários para testar como diferentes tipos de decisões políticas podem afectar o futuro do bem-estar humano e da estabilidade planetária:
1. Too Little, Too Late (TLTL)
Neste cenário, o mundo continua com decisões políticas semelhantes às dos últimos 40 anos, sem mudanças estruturais significativas. As respostas a problemas globais são tardias, fragmentadas e insuficientes.
- A população global cresce até meados do século e começa a declinar gradualmente.
- O aquecimento global ultrapassa os 2 °C, elevando os riscos de pontos de rutura nos sistemas da Terra.
- A desigualdade continua a aumentar, enquanto a coesão social e a confiança nas instituições diminuem.
- Apesar do aumento do PIB per capita, o índice de bem-estar global entra em declínio a partir da década de 2020, devido à degradação ambiental, ao aumento das tensões sociais e à desigualdade crescente.
Este cenário traduz-se num mundo cada vez mais polarizado, instável e vulnerável a crises ecológicas, sociais e económicas interligadas.
2. Giant Leap (GL)
Neste cenário, assume-se uma mudança decisiva e coordenada a nível global a partir de 2022, com a implementação de cinco grandes “reviravoltas políticas” (turnarounds):
- Erradicação da pobreza – através de investimentos em capacidade produtiva, perdão de dívida e acesso universal a rendimento digno.
- Redução das desigualdades – com impostos progressivos, reforço dos direitos laborais e um dividendo básico universal.
- Empoderamento de mulheres e grupos marginalizados – melhorando a saúde, educação e acesso à representação política.
- Reforma do sistema alimentar – com agricultura regenerativa, redução do desperdício e dietas mais sustentáveis.
- Transição energética – com abandono dos combustíveis fósseis, electrificação e energias renováveis acessíveis.
Com estas transformações:
- O crescimento populacional abranda, e o número de habitantes começa a decrescer após 2050.
- O aquecimento global mantém-se abaixo dos 2 °C e tende a diminuir até 2100.
- A desigualdade é contida e a coesão social reforçada, possibilitando uma acção política eficaz.
- O bem-estar médio global inverte a sua tendência negativa e melhora ao longo do século.
Este cenário mostra que ainda há tempo para mudar de rumo, mas apenas se forem adoptadas políticas ambiciosas e justas, com cooperação internacional e apoio político robusto.
Um modelo para pensar o futuro
O modelo Earth4All, baseado em simulação de sistemas dinâmicos, integra múltiplas dimensões interdependentes e apresenta um índice de bem-estar composto por cinco componentes-chave:
- Rendimento disponível
- Níveis de aquecimento global
- Despesa pública per capita
- Distribuição justa entre capital e trabalho
- Percepção de progresso individual e colectivo
Ao combinar estas variáveis, o modelo demonstra que o bem-estar humano não depende apenas do crescimento económico, mas também da qualidade das instituições, da equidade social e da estabilidade ecológica.
Tempo limitado, mas ainda há esperança
Segundo o IPCC, existe uma “janela de oportunidade breve e em rápido fecho” para garantir um futuro habitável e sustentável. O cenário actual, baseado num crescimento económico desregulado, está a empurrar-nos para além dos limites planetários, pondo em risco a biosfera e a própria civilização.
Mas o modelo Earth4All também indica que, com acção coordenada e transformadora, é possível:
- Reduzir significativamente as emissões até 2050
- Aumentar o bem-estar global de forma sustentada
- Reforçar a coesão social e restaurar a confiança
- Preparar governos para liderar transformações estruturais de longo prazo
Um apelo à acção colectiva
O Earth4All não pretende prever o futuro com precisão matemática, mas oferecer ferramentas concretas para pensar, planear e agir. Num mundo em que a incerteza domina, a construção de cenários é essencial para evitar os piores desfechos e escolher caminhos mais justos e sustentáveis.
Como resume o relatório:
“Sem justiça social, não há transição ecológica possível.”
A escolha entre os cenários Too Little, Too Late e Giant Leap não é apenas técnica, mas profundamente política e moral. O que está em jogo é nada menos do que o futuro partilhado da humanidade num planeta finito.


