A população diminui em 90%. Os salmões juvenis estão a ser atacados pelos robalos, por isso migram à noite para evitar predadores. Reduzir a poluição luminosa pode ajudar na conservação da espécie
Para os jovens salmões, a viagem ao longo do rio San Joaquin, na Califórnia Central, não é uma tarefa fácil. Todas as Primaveras e Outonos, milhares destes peixes — cada um com o comprimento de um dedo mindinho — embarcam numa corrida de 350 milhas (cerca de 600km), nadando dia e noite e esquivando-se de predadores ao longo do caminho para chegar ao Oceano Pacífico.
Mas menos de 5% sobrevivem à viagem e, nalguns anos, quase nenhum consegue salvar-se. As temperaturas elevadas da água, as barragens e a má qualidade da água põem o animal em perigo, mas os predadores introduzidos pelo homem, incluindo o robalo listrado e o largemouth bass, matam a maior parte deles.
Num novo estudo conduzido pela CU Boulder, os investigadores revelam como estes salmões aprendem a nadar em diferentes partes do rio em diferentes alturas do dia para evitar os predadores e conservar energia. O estudo foi publicado na revista Ecology Letters.

A equipa de pesquisa colocou monitores no Rio San Joaquin para rastrear as atividades dos salmões jovens e seus predadores. Foto: Eric Danner
“A pesca do salmão na zona do delta do rio San Joaquin está à beira do colapso”, afirmou Mike Gil, primeiro autor do estudo e professor assistente no Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva. “Sabemos que estes salmões juvenis estão a ser dizimados na sua migração para o mar. Precisamos de saber porquê e como é que isto está a acontecer e se existem oportunidades para alavancar as práticas de conservação.”
Após passarem o primeiro ano no rio onde nasceram, os salmões juvenis migram para o oceano para terem acesso aos nutrientes de que necessitam para amadurecer. Quando atingem a idade reprodutiva, já em adultos regressam ao rio para desovar.
Segundo o Departamento de Pesca e Vida Selvagem da Califórnia, a população de salmões Chinook que migram no outono nos sistemas dos rios Sacramento e San Joaquin diminuiu de 872 669 em 2002 para 79 985 em 2022 – um declínio de 90% em apenas duas décadas.
Gil e a sua equipa colocaram localizadores em 424 juvenis de salmão Chinook, bem como em robalos. Utilizando detetores colocados ao longo das margens do rio. A equipa monitorizou as atividades dos salmões e dos seus predadores, incluindo quando e onde estes atacam mais, durante dois meses, à medida que viajavam pelo rio San Joaquin.
Descobriram que os salmões migram a uma distância muito maior durante a noite, um comportamento que os cientistas já tinham observado anteriormente sem compreender bem porquê.
Os dados da equipa mostraram que, durante o dia, os robalos predadores tendem a concentrar-se e a atacar mais frequentemente a meio do rio, onde o salmão prefere nadar. Aí, as correntes que correm em direção ao mar são mais fortes, pelo que os salmões podem descer a água a jusante, poupando energia.
Para evitar esses robalos, os jovens salmões adaptaram-se para migrar para o meio do rio durante a noite. Entretanto, durante o dia, procuram refúgio junto das margens — mesmo que isso signifique gastar mais do dobro da energia para nadar a mesma distância.
“Intuitivamente, poder-se-ia pensar que estes peixes deveriam estar sempre a deslocar-se para o meio do rio, para poderem chegar ao oceano e fugir o mais rapidamente possível de todos estes predadores aterradores. Mas não foi isso que vimos”, disse Gil. “O nosso estudo sugere que as atividades do robalo estão a forçar estes peixes a adotar uma estratégia diferente”.
Os investigadores também descobriram que, durante o amanhecer e o anoitecer, os ataques dos predadores aumentaram. Gil disse que isto se deve provavelmente ao fato de os robalos, com os seus olhos maiores, poderem ver melhor em condições de pouca luz do que os salmões juvenis, que têm olhos mais pequenos.
“Estes peixes parecem aperceber-se realmente das alterações na iluminação ambiente”, afirmou Gil.
Gil espera que as descobertas possam ajudar a orientar os esforços para salvar as populações locais de salmão.
Por exemplo, limitar a poluição luminosa nocturna nas cidades próximas do rio e dos seus estuários poderia ajudar estes peixes a sobreviver.
“Nós, humanos, somos bastante limitados na nossa compreensão do comportamento dos animais na natureza. Se compreendermos melhor esta questão, podemos tomar decisões mais informadas sobre a forma de manter estas espécies”, afirmou Gil.


