O desperdício alimentar continua a crescer a nível global e já atinge, em média, 132 quilos por pessoa por ano. Embora os países mais ricos ainda sejam os que mais desperdiçam alimentos, a diferença face a economias emergentes está a diminuir, em grande parte devido à urbanização e ao aumento do poder de compra.
A conclusão é de um artigo de opinião publicado esta quinta-feira (26 de setembro) na revista Cell Reports Sustainability, assinado pelos economistas agrícolas Emiliano Lopez Barrera e Dominic Vieira, da Universidade Texas A&M, nos Estados Unidos.
Segundo os autores, esta convergência no desperdício resulta sobretudo da subida acentuada nas perdas alimentares em países de rendimento médio, como a China, a Índia ou o Brasil, que atravessam rápidos processos de crescimento económico e urbanização.
“Se nada for feito, o aumento do desperdício em países de baixo e médio rendimento pode cristalizar padrões de consumo insustentáveis, com sérias implicações para a segurança alimentar, a saúde pública e a estabilidade ambiental”, alertam os investigadores.
Urbanização muda hábitos e aumenta o desperdício
A urbanização tem um papel central neste fenómeno: o acesso mais fácil a supermercados e eletrodomésticos como frigoríficos leva os consumidores a comprar mais produtos perecíveis do que conseguem efetivamente consumir.
As diferenças entre áreas urbanas e rurais também são evidentes: nas cidades gera-se mais desperdício, enquanto em meios rurais é mais comum o reaproveitamento de restos alimentares.
Também os retalhistas têm grande responsabilidade. Só no Brasil, as cadeias de supermercados reportaram perdas de 6,7 mil milhões de reais (cerca de 1,2 mil milhões de dólares) em produtos alimentares desperdiçados em 2018.
Soluções possíveis
Entre 2004 e 2014, o desperdício alimentar global aumentou 24%. Hoje, a diferença entre países de diferentes níveis de rendimento é já pequena: apenas 7 quilos per capita por ano separam as economias de baixo, médio e alto rendimento.
Para inverter a tendência, os especialistas defendem um conjunto de medidas:
- Infraestruturas de cadeia de frio mais eficazes;
- Leis que facilitem a doação de alimentos por restaurantes e supermercados;
- Campanhas de sensibilização sobre compras conscientes, porções adequadas e armazenamento correto;
- Incentivos à compostagem, à partilha comunitária e à reutilização de sobras.
“Investimentos proativos podem ajudar a moldar normas sociais antes de o desperdício alimentar se enraizar”, afirmam os autores. “A inação de hoje significará custos mais elevados e maiores dificuldades no futuro.”
A mensagem é clara: enfrentar o desperdício alimentar exige cooperação entre governos, empresas, investigadores e cidadãos, numa estratégia global, mas adaptada a cada país e região.


