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O vírus marinho que usa um “Cavalo de Troia” para roubar energia às bactérias do oceano

Imagine um ladrão tão esperto que, em vez de arrombar a porta, entra em sua casa usando a sua própria chave. É mais ou menos isto que alguns vírus marinhos fazem no oceano – e os cientistas descobriram agora como funciona este truque engenhoso.

Nos mares vivem bilhões de cianobactérias, microrganismos tão pequenos que só se veem ao microscópio, mas com uma importância gigante: fazem fotossíntese, libertam oxigénio e produzem o carbono que serve de base para toda a vida marinha. Ou seja, sem elas, os oceanos – e o planeta – seriam muito diferentes.

Mas estas bactérias têm inimigos naturais: os cianófagos, vírus especializados em atacá-las. E estes vírus descobriram uma forma impressionante de virar as armas das bactérias contra elas próprias.

O truque: usar o gene da bactéria para a destruir

As cianobactérias têm um gene chamado nblA, que funciona como um botão de emergência. Quando a bactéria passa fome ou stress, ativa este gene para desmontar parte da sua “usina de energia” e recuperar aminoácidos que lhe permitem sobreviver.

E é aqui que entra o plano digno de filme: ao longo da evolução, os vírus roubaram este gene às bactérias e passaram a carregá-lo no seu próprio ADN. Quando infetam uma cianobactéria, ativam esse mesmo gene – mas não para a salvar.
Ativam-no para a sabotar.

Resultado? A estrutura que a bactéria usa para fazer fotossíntese é desmontada, libertando moléculas valiosas. Só que, em vez de servirem para manter a bactéria viva, passam a alimentar o vírus, que se multiplica à velocidade da luz dentro do próprio hospedeiro. Um verdadeiro Cavalo de Troia biológico: a bactéria acha que está a usar um mecanismo de sobrevivência, mas está a ser enganada e destruída por dentro.

Um truque com impacto global

Pode parecer algo pequeno, mas esta descoberta tem dimensão planetária. Os investigadores mostraram que esta estratégia viral reduz cerca de 5% da energia total produzida pelas cianobactérias dos oceanos.
Cinco por cento, quando falamos de organismos que geram grande parte do oxigénio que respiramos e capturam enormes quantidades de CO₂, é muito. Tanto que pode influenciar ecossistemas inteiros e até processos climáticos globais.

Ciência de equipa

O estudo foi realizado por três laboratórios da Faculdade de Biologia do Technion (Israel) e combinou técnicas de ponta: edição genética em vírus, análise de proteínas em tempo real e estudo de amostras recolhidas de oceanos de todo o mundo.
Graças a isso, foi possível ver não apenas o que acontece numa bactéria infetada, mas também perceber que este mecanismo é comum em muitos ambientes marinhos.

Uma história de estratégia e evolução

O que este estudo revela é quase uma batalha ao estilo dos épicos antigos, mas microscópica: vírus e bactérias a tentar superar-se há milhões de anos, cada um inventando novas armas e defesas.
Desta vez, os vírus levaram a melhor – e usaram o truque mais velho da guerra: entrar disfarçados como amigos… e atacar quando menos se espera.

A ciência às vezes parece ficção científica. Mas, neste caso, a realidade já é bem mais criativa.

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