Secas, vagas de calor, inundações e incêndios florestais estão a tornar-se cada vez mais comuns — e mais extremos — durante os verões no hemisfério norte. Mas porquê? A resposta pode estar nas altas camadas da atmosfera, onde grandes ondas de vento estão a comportar-se de forma cada vez mais imprevisível.
Um novo estudo científico Increased frequency of planetary wave resonance events over the past half-century, publicado na revista PNAS explica que o comportamento das chamadas ondas planetárias de Rossby está a mudar drasticamente devido às alterações climáticas, criando condições ideais para fenómenos meteorológicos extremos.
O que são as ondas de Rossby?
As ondas de Rossby são correntes de ar de grande escala que serpenteiam pela atmosfera a altitudes elevadas, guiando os sistemas de alta e baixa pressão. Funcionam como “corredores invisíveis” que transportam calor e humidade à volta do planeta.
Quando estas ondas estão em movimento, mantêm o tempo variável. Mas quando ficam presas ou paradas no mesmo local durante vários dias ou semanas, o tempo também fica preso e quando isso sucede, o tempo também fica parado — como uma onda de calor que não vai embora, ou uma tempestade que não se move.
É esse bloqueio atmosférico — tecnicamente chamado “ressonância quasi-estacionária” — que os cientistas agora associam ao aumento de eventos meteorológicos extremos nos meses de verão.
Eventos climáticos extremos triplicaram
A equipa de investigação analisou dados desde 1950 e concluiu que o número de verões com ondas atmosféricas presas triplicou. Estes episódios estão ligados directamente a:
- Vagas de calor prolongadas
- Inundações catastróficas
- Secas severas
- Incêndios florestais de grande escala
Este padrão foi identificado com base em dados de vento e temperatura em altitude, obtidos por satélites e estações meteorológicas terrestres. Foram também realizadas simulações estatísticas com milhares de cenários, confirmando que este aumento não é aleatório.
Um ártico que aquece demasiado rápido
Um dos principais motores desta mudança está no Ártico, que está a aquecer cerca de quatro vezes mais depressa do que o resto do planeta. Esta diferença está a enfraquecer os ventos de alta altitude, facilitando que as ondas de Rossby fiquem mais lentas ou mesmo paradas.
Ao mesmo tempo, o contraste crescente entre temperaturas da terra e do mar — por exemplo, entre continentes e oceanos — pode criar barreiras naturais que também dificultam a circulação atmosférica normal.
El Niño: Um velho conhecido, agora com novo papel
O estudo também identifica o fenómeno El Niño como um factor chave. Em anos em que as águas do Pacífico tropical aquecem significativamente, o verão seguinte tem muito maior probabilidade de sofrer eventos extremos associados a ondas atmosféricas presas.
Foi assim em verões históricos como os de 1998, 2016 e 2023, todos eles marcados por grandes ondas de calor, incêndios e inundações.
Como foi feito o estudo?
Os cientistas combinaram dados diários de vento e temperatura (em altitude e à superfície) com métodos avançados de análise estatística, incluindo:
- Identificação de dias com ressonância quasi-estacionária
- Análise da amplitude e velocidade das ondas atmosféricas
- Criação de uma “impressão digital térmica” que identifica anos com condições propícias a estes bloqueios
- Validação cruzada com três grandes bases de dados de temperatura global
O resultado é claro: há uma tendência consistente e robusta para o aumento destes eventos. E os seus efeitos estão cada vez mais visíveis à superfície.
Modelos climáticos estão a ficar para trás
Uma das maiores preocupações dos especialistas é que os actuais modelos climáticos não conseguem simular bem estas mudanças nas ondas atmosféricas. Ou seja, os riscos de fenómenos extremos podem estar a ser gravemente subestimados nas previsões oficiais de futuro.
Exemplos recentes não faltam
Estes fenómenos não são apenas teoria. Já os sentimos na pele:
- A vaga de calor na Europa em 2003, que causou mais de 70.000 mortes
- As inundações no Paquistão e a seca na Rússia em 2010
- Os incêndios devastadores no Canadá em 2016
- A cúpula de calor no Canadá e noroeste dos EUA em 2021, com temperaturas recorde
- Os verões extremos de 2023, que coincidiram com um forte El Niño
Todos estes eventos foram associados a situações em que ondas atmosféricas ficaram bloqueadas durante dias ou semanas.
O que isto significa para todos nós:
- O clima de verão no hemisfério norte está a tornar-se mais extremo e mais persistente.
- As alterações climáticas estão a mudar a forma como o próprio ar circula à volta do planeta.
- Há necessidade de melhorar os modelos de previsão do tempo e do clima.
- Precisamos de estar mais preparados para eventos extremos que duram mais tempo — como ondas de calor prolongadas ou chuvas intensas e concentradas.
O que é preciso fazer…
Esta descoberta mostra que o sistema climático está a tornar-se mais instável e imprevisível. E isso exige uma resposta à altura:
- Melhorar os modelos de previsão meteorológica e climática
- Adaptar infraestruturas e serviços de emergência para responder a fenómenos mais extremos e duradouros
- Investir em sistemas de alerta precoce e educação climática
- Reduzir urgentemente as emissões de gases com efeito de estufa, que estão na raiz destas alterações
Um novo normal climático?
A atmosfera da Terra está a mudar de forma invisível — mas os efeitos são bem visíveis. Os verões estão a tornar-se mais quentes, mais secos, mais chuvosos e mais extremos.
Tudo por causa de mudanças subtis nas correntes de ar que circulam acima das nossas cabeças.
O futuro exige uma nova forma de encarar o clima: mais vigilância, mais preparação e mais acção.
Porque o que acontece no céu — por mais distante que pareça — já está a impactar as nossas cidades, as nossas casas e as nossas vidas.


