A forma como as moscas da fruta acasalam pode ser a chave para limitar a propagação de doenças pelos mosquitos
Os investigadores da Universidade de Iowa descobriram um gene que orquestra os movimentos das antenas das moscas da fruta fêmeas, o que é fundamental para que estas detetem o som único produzido pelos potenciais parceiros masculinos. Segundo os cientistas esse gene está presente nos mosquitos e pode ser silenciado, o que, em teoria, diminuiria as hipóteses de acasalamento, limitando assim o crescimento da população de mosquitos. Logo, mais sossego para humanos e animais.
Os mosquitos são vetores de transmissão de várias doenças que afetam a saúde humana, caso do vírus do Nilo Ocidental, a encefalite equina do Leste, o Zika, a malária, entre outras patologias. As fêmeas dos mosquitos propagam essas doenças entre os animais e os seres humanos quando os picam, extraindo sangue contaminado com um germe da doença que depois pode ser transmitido a outras pessoas em picadas subsequentes.
“Os mosquitos têm um mecanismo muito semelhante ao das moscas da fruta, com um tipo de sintonização ativa, que pode ter implicações na prevenção da propagação de muitas doenças”, afirma Daniel Eberl, professor do Departamento de Biologia do Iowa e autor correspondente do estudo. “Assim, compreender como as moscas da fruta e os mosquitos não só acasalam, mas também como ouvem, pode ter considerações importantes para a saúde humana”.
Os investigadores utilizaram microfones minúsculos para captar o som quando uma espécie de mosca da fruta macho bate as asas. São essas vibrações, ou impulsos, no ar, que são captadas pelas antenas das moscas da fruta fêmeas, assinalando a presença de um macho para acasalar. Pode pensar-se na antena da mosca da fruta fêmea como um órgão sensorial, que “ouve” as vibrações de forma semelhante ao ouvido humano.
Nem todas as canções de cortejo são iguais
“Penso ser um ponto-chave o facto de as canções que cantam serem um pouco diferentes em espécies intimamente relacionadas. O espaçamento entre os impulsos é distinto para cada uma. E é, por isso, que é importante, porque querem acasalar com um parceiro da sua própria espécie. Por isso, a canção ajuda-as a reconhecer a “família””, explica.
Os biólogos sabem que as moscas fêmeas sintonizam as suas antenas numa frequência semelhante à do som que emana de um macho de uma espécie semelhante. O que não sabiam era como essa afinação ocorria e onde. Os investigadores de Iowa examinaram a audição da Drosophila melanogaster, uma espécie de mosca da fruta bem conhecida e há muito estudada. Em particular, estudaram o órgão de Johnston da mosca, localizado na antena, e o local onde o som é detetado. Dentro desse órgão, encontraram e estudaram uma via chamada canal de iões de potássio, que energiza os neurónios envolvidos na audição da mosca. Investigando mais a fundo, descobriram que um gene, chamado Shal, é a espécie de guardião do canal iónico, ditando quando os sons ou movimentos exteriores são convertidos em sinais elétricos que são depois transmitidos entre os neurónios. Esta cascata de eventos, gerida pelo gene Shal, parecia ser essencial para a mosca ouvir. Os investigadores cancelaram então o gene Shal para confirmar o seu papel na afinação da antena de uma mosca fêmea e, consequentemente, na sua audição.
“Sem o gene Shal, a fêmea perde a capacidade de sintonizar a antena para essa frequência. E assim, obtém-se uma resposta de acasalamento mais reduzida”, diz Eli Gregory, um estudante de fisiologia humana de Cedar Rapids que realizou as experiências de cancelamento do gene. Os mosquitos utilizam um método semelhante nos seus rituais de cortejamento.Isto significa que “poderíamos eliminar esse gene ou esse canal de potássio e impedir que estes fossem capazes de acasalar tão eficazmente como o fazem, o que poderia significar menos mosquitos e, por conseguinte, menos problemas para a saúde humana”, afirma Eberl.
NOTA
O estudo, “The voltage-gated potassium channel Shal (Kv4) contributes to active hearing in Drosophila”, foi publicado online a 17 de dezembro na eNeuro, uma revista de acesso livre da Society for Neuroscience. Os co-autores do estudo incluem Mei-ling Joiner, investigadora assistente e professora assistente adjunta do Departamento de Biologia de Iowa, e YiFeng Xu, Tai-Ting Lee, Azusa Kamikouchi e Matthew Su da Universidade de Nagoya, no Japão.


